Mais do que um livro. Um caminho.
Há livros que se escrevem. E há livros que primeiro precisam
de ser conquistados. Este foi um deles.
Quando comecei este projeto, não imaginei a dimensão do
caminho que tinha pela frente. Imaginava as fotografias. Imaginava as
histórias. Imaginava o livro.
Não imaginava tudo o que o livro exigiria antes de
existir. Durante meses organizei entrevistas, planeei sessões
fotográficas, estudei enquadramentos, revi textos, refiz páginas, confirmei
datas, alterei horários, corrigi provas, procurei apoios, acompanhei a
impressão e aprendi que um livro nunca é apenas aquilo que o leitor segura nas
mãos.
Um livro é também tudo aquilo que ninguém vê. É
tempo. É persistência. É silêncio. É dúvida. É voltar atrás
quando parecia que estava tudo pronto. É descobrir que a última decisão
nunca é realmente a última.
Este é o meu primeiro livro de autor. Já
participei em obras coletivas. Já publiquei fotografias em projetos
partilhados. Mas nunca antes uma obra tinha dependido tão completamente de
mim. Este livro traz a minha assinatura na capa. Mas, acima de tudo,
traz a responsabilidade de todas as decisões que nele ficaram impressas. Das
boas e das menos boas. E não trocaria esse peso por nada.
Não havia ninguém para decidir por mim. Mas também não
havia ninguém para resolver os problemas por mim. Talvez por isso este
livro tenha acabado por me ensinar muito mais do que fotografia, paginação ou
edição.
Ensinou-me a compreender melhor as pessoas. Vivemos
numa época em que todos elogiam a criatividade. Mas nem todos gostam de
quem cria. Gostamos da obra terminada. Nem sempre gostamos do
incómodo provocado por quem decide fazê-la.
Ao longo deste caminho encontrei algumas pessoas disponíveis, generosas e comprometidas com
este projeto. Sem elas, este livro nunca teria sido possível.
Porque aprendi cedo que há previsões que apenas merecem uma resposta: o trabalho! As palavras convencem pouco. As obras respondem por si.
Nunca fiz este livro para provar que alguém estava errado.
Fi-lo para provar a mim próprio que algumas ideias merecem ser levadas até ao
fim, mesmo quando parecem demasiado ambiciosas para quem as observa de fora. É
também a demonstração de que vale sempre a pena acreditar numa ideia quando
essa ideia tem raízes, propósito e verdade.
Se daqui a cinquenta anos alguém abrir estas páginas e
descobrir o rosto de um músico, recordar uma história ou compreender um pouco
melhor o que significaram cento e vinte anos da Sociedade Recreativa e Musical
Loriguense, então todo este esforço terá valido a pena. Porque os cargos
passam. As opiniões esquecem-se. As vaidades desaparecem. Mas as
obras ficam. É essa a verdadeira diferença entre ocupar um lugar e deixar
uma marca.
Este livro fala de música. Mas também fala de
liberdade. Da liberdade de imaginar. Da liberdade de
insistir. Da liberdade de criar mesmo quando seria mais cómodo
desistir. E talvez tenha sido essa a maior lição que retirei nestes
últimos meses. Criar nunca foi um caminho fácil. Mas também nunca foi
um caminho para quem procura facilidade. É um caminho para quem acredita
que algumas memórias merecem sobreviver. E que algumas histórias merecem
ser contadas. Mesmo quando poucos acreditam nelas.
Fecho este livro com a mesma serenidade com que o comecei.
Não porque tenha sido fácil, mas porque ficou exatamente como entendi que devia
ficar. E essa, para um autor, é talvez a maior das recompensas.
Porque, no fim de tudo, compreendi que o título deste livro
nunca falou apenas da música. Falou sempre das pessoas. Daquelas que
continuam. Daquelas que persistem. Daquelas que fazem. Daquelas
que, em vez de perguntarem se vale a pena, simplesmente começam. Porque
haverá sempre quem critique. Haverá sempre quem duvide.
Mas, felizmente...
...haverá sempre quem toque.



