quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Há Sempre Quem Toque

Mais do que um livro. Um caminho.

Há livros que se escrevem. E há livros que primeiro precisam de ser conquistados. Este foi um deles.

Quando comecei este projeto, não imaginei a dimensão do caminho que tinha pela frente. Imaginava as fotografias. Imaginava as histórias. Imaginava o livro.

Não imaginava tudo o que o livro exigiria antes de existir. Durante meses organizei entrevistas, planeei sessões fotográficas, estudei enquadramentos, revi textos, refiz páginas, confirmei datas, alterei horários, corrigi provas, procurei apoios, acompanhei a impressão e aprendi que um livro nunca é apenas aquilo que o leitor segura nas mãos.

Um livro é também tudo aquilo que ninguém vê. É tempo. É persistência. É silêncio. É dúvida. É voltar atrás quando parecia que estava tudo pronto. É descobrir que a última decisão nunca é realmente a última.

Este é o meu primeiro livro de autor. Já participei em obras coletivas. Já publiquei fotografias em projetos partilhados. Mas nunca antes uma obra tinha dependido tão completamente de mim. Este livro traz a minha assinatura na capa. Mas, acima de tudo, traz a responsabilidade de todas as decisões que nele ficaram impressas. Das boas e das menos boas. E não trocaria esse peso por nada.

Não havia ninguém para decidir por mim. Mas também não havia ninguém para resolver os problemas por mim. Talvez por isso este livro tenha acabado por me ensinar muito mais do que fotografia, paginação ou edição.

Ensinou-me a compreender melhor as pessoas. Vivemos numa época em que todos elogiam a criatividade. Mas nem todos gostam de quem cria. Gostamos da obra terminada. Nem sempre gostamos do incómodo provocado por quem decide fazê-la.

Ao longo deste caminho encontrei algumas pessoas disponíveis, generosas e comprometidas com este projeto. Sem elas, este livro nunca teria sido possível.

Porque aprendi cedo que há previsões que apenas merecem uma resposta: o trabalho! As palavras convencem pouco. As obras respondem por si.

Nunca fiz este livro para provar que alguém estava errado. Fi-lo para provar a mim próprio que algumas ideias merecem ser levadas até ao fim, mesmo quando parecem demasiado ambiciosas para quem as observa de fora. É também a demonstração de que vale sempre a pena acreditar numa ideia quando essa ideia tem raízes, propósito e verdade.

Se daqui a cinquenta anos alguém abrir estas páginas e descobrir o rosto de um músico, recordar uma história ou compreender um pouco melhor o que significaram cento e vinte anos da Sociedade Recreativa e Musical Loriguense, então todo este esforço terá valido a pena. Porque os cargos passam. As opiniões esquecem-se. As vaidades desaparecem. Mas as obras ficam. É essa a verdadeira diferença entre ocupar um lugar e deixar uma marca.

Este livro fala de música. Mas também fala de liberdade. Da liberdade de imaginar. Da liberdade de insistir. Da liberdade de criar mesmo quando seria mais cómodo desistir. E talvez tenha sido essa a maior lição que retirei nestes últimos meses. Criar nunca foi um caminho fácil. Mas também nunca foi um caminho para quem procura facilidade. É um caminho para quem acredita que algumas memórias merecem sobreviver. E que algumas histórias merecem ser contadas. Mesmo quando poucos acreditam nelas. 

Fecho este livro com a mesma serenidade com que o comecei. Não porque tenha sido fácil, mas porque ficou exatamente como entendi que devia ficar. E essa, para um autor, é talvez a maior das recompensas.

Porque, no fim de tudo, compreendi que o título deste livro nunca falou apenas da música. Falou sempre das pessoas. Daquelas que continuam. Daquelas que persistem. Daquelas que fazem. Daquelas que, em vez de perguntarem se vale a pena, simplesmente começam. Porque haverá sempre quem critique. Haverá sempre quem duvide. 

Mas, felizmente...

...haverá sempre quem toque.