segunda-feira, 14 de março de 2016

Ambiências de infância

Dizem os entendidos que os nevões na Serra da Estrela já não são tão frequentes e intensos como no passado devido às alterações climáticas ao nível do aquecimento global do planeta.
De facto, na minha infância presenciei muitos nevões e bem acentuados, de tal forma que dificultavam bastante a mobilidade ao ponto de serem interrompidas as aulas na escola primária e no ciclo preparatória. Nesses tempos, o "camão" de neve vinha com facilidade até aos 400 metros de altitude (ou menos) e atingia uns bons centímetros de altura. Todo o Vale de Loriga se cobria de branco.
As previsões meteorológicas eram falíveis e projetadas para um curto espaço de tempo mas também as dispensava porque residia lá.
Agora, essas previsões mais certas e alongadas, são importantes e determinantes para se planear uma deslocação propositada com o objectivo de assistir à queda de neve em altitudes mais baixas assim como de contemplar a beleza branca de toda a envolvente da minha vila natal.
Na presente publicação (e na próxima) apresentam-se alguns registos fotográficos de Loriga "pintada" de branco no final do passado mês de Fevereiro.              





sábado, 16 de janeiro de 2016

Aniversário de Manuel Cachola


Hoje, 16 de Janeiro, é o aniversário do Senhor Manuel Cachola que completa 81 anos de vida.
 
 
No último passeio fotográfico de 2015, ocorrido precisamente no penúltimo dia do ano, fez-se uma pequena paragem à beira da estrada nas proximidades de Vale das Mós, uma povoação que fica num extremo do Ribatejo, confrontando com o Alentejo. Quis a complexa combinação espaço-temporal, comumente designada de acaso, que me cruzasse com o senhor Manuel Cachola que pastoreava o seu rebalho pelas pastagens da zona.
Perguntei-lhe se poderia tirar algumas fotografias a ele e ao seu rebanho ao que de imediato respondeu afirmativamente.
 

Entre intervalos de disparos foi-se gerando algum diálogo, algum do qual memorizei e permite agora dar algum significado  a estas imagens.
Como normalmente acontece em conversa de ocasião, pergunta-se o nome e a idade do interlocutor, ao que o pastor falou afirmando ser conhecido por Manuel Cachola embora o seu nome “radical” seja outro, também começado por Manuel.
Sobre a sua idade, disse que completaria os 81 anos no dia 16 de janeiro de 2016 mas adiantou, com algum sentimento de tristeza, que não gostava lá muito da data porque tem uma filha que também nasceu no dia 16 de Janeiro. E explicou: quando ele morrer o dia será recordado de uma forma diferente e não gostaria que o dia de aniversário da sua filha venha a ser recordado com tristeza como sendo o dia em que o pai fazia anos.
 


Com a intenção de lhe dar um cigarro, questionei-o se fuma. Chegou a fumar 6 maços de tabaco por dia, era cigarro atrás de cigarro. Até que um dia se perguntou a si mesmo se seria o tabaco a mandar nele. A partir daí deixou de fumar.

 
Esqueça-se o tabaco e, como estávamos em época de quadra natalícia e de passagem de ano, eu trazia uns pequenos bolos (broas) incluídos na minha refeição, tendo-lhe oferecido alguns que ele timidamente acabou por aceitar depois de alguma insistência.


A fotografia e a conversa foram-se desenrolando durante cerca de 30 minutos. Do senhor Manuel Cachola fui escutando alguns dos seus episódios vividos. Parece que a vontade de falar e de se fazer ouvir era muita, como se ele tivesse encontrado um pequeno oásis de companhia no meio de uma infindável solidão. Terá sido por isso que, no momento da despedida, expressou o seu sentido agradecimento. Com os olhos meio lacrimejados lá disse que não poderia ter sido melhor este pequeno momento de companhia e diálogo. 
 


Ora com um pé no Ribatejo e com outro no Alentejo, o senhor Manuel Cachola lá andará hoje, dia do seu 81º aniversário, percorrendo os trilhos do mato e da erva na companhia solitária do seu rebanho.

Feliz Aniversário Senhor Manuel Cachola